Por que é tão difícil mudar hábitos que vieram da infância?

Hoje quero oferecer esse texto em resposta a perguntas como essa que recebo com frequência. Por que é tão difícil mudar? Eu sei o que tenho que fazer, o que não quero e o que eu quero, mas como mudar? Como mudar se aprendi assim desde a infância?
As programações que vieram da infância, algumas delas configuradas como complexos, são os padrões que estão mais profundos no inconsciente, que determinam muitas de nossas verdades internas e que muitas vezes não sabemos de onde vieram.
(Atualmente o termo crenças está sendo muito usado e vou adotá-lo ao longo do texto.)
Elas vieram das nossas vivências da infância e também da influência de gerações passadas.
Quero oferecer aqui um olhar da perspectiva fisiológica do cérebro, desenvolvimento da criança e a formação das nossas programações. Trago aqui um pouco do meu estudo da Biologia da Intuição e a evolução das percepções irracionais ao longo da vida;

O cérebro da criança e as “crenças”

Uma das chaves para explicar como se estabelecem as crenças é o funcionamento do cérebro. A diferença entre a atividade cerebral de um adulto e das crianças é imensa. Nosso cérebro opera em 5 principais faixas de frequências cerebrais. 
Para nós adultos, elas oscilam em 5 faixas de frequências durante o nosso dia, desde o sono, até uma concentração intensa. Nas crianças até os 12 anos de idade isso é totalmente diferente.

Como pode ver na imagem, a atividade cerebral de um bebê acordado opera na mesma faixa de frequência de quando estamos em sono profundo, em delta! Nesse estado estamos totalmente inconscientes. É o que ocorre com o bebê, por isso não lembramos dessa fase.
De 2 a 6 anos predomina a frequência theta, e dos 6 aos 12, alfa.
Podemos pensar então que a criança está vendo o mundo praticamente da mesma maneira que vivenciamos um sonho ou uma meditação. Assim, por mais que percebamos que a criança “entende” algo, não é igual ao nosso entendimento racional.

O que Steiner já sabia

Rudolf Steiner já havia percebido essa dinâmica da criança e dizia que até os 7 anos a criança está como “dormindo”. Mesmo sem os equipamentos para verificar o funcionamento cerebral Steiner já entendia como a criança percebia o mundo, como num mundo da fantasia, ou do sonho, sendo que até os 7 sua expressão é preferencialmente por imitação. Por isso, a alfabetização na pedagogia Waldorf acontece a partir dos 7 anos num processo que se estende até os 10.
Até os 07 anos são formadas as programações básicas, aquilo que fazemos de maneira automática. O fato de operarem em níveis baixos de consciência, as vivencias são levadas direto ao inconsciente, sem filtros ou discriminação analítica. Somos como uma “esponja” absorvendo o que ocorre ao nosso redor.
Os jesuítas já sabiam disso e se diziam: “Entregue aos meus cuidados uma criança até os 7 nos e lhe entregarei um homem”
A partir dos 7 a criança deixa um universo da imitação para iniciar a expressão de uma vontade interna. Esse entrelaçamento com a família e o meio faz com que a criança, por vezes, expresse alguma questão que não é sua. Uma preocupação dos pais pode gerar, por exemplo, um sintoma na criança.
A partir dos 12 anos, o cérebro já expressa todas as frequências, embora o estado predominante seja Beta, voltado para a consciência e foco. Nesta fase, a criança termina o nível mais básico de aprendizagem na escola e passa a trabalhar com as informações acadêmicas um pouco mais complexas.
Quando a criança passa para a adolescência ela está cheia de informações, como seu modo de falar, a noção de que pode ter tudo o que deseja ou a ideia de que para conquistar algo será uma tarefa árdua e difícil. Depende do que ela viveu.

As crenças influenciando nossa vida adulta 

Por isso, quando nos tornamos adultos e começamos a sentir o que queremos, nossas programações nem sempre contribuem. Elas não são necessariamente expressão da vontade do nosso eu. São padrões dos nossos pais, familiares, de estímulos que recebemos na escola nessa fase. Funcionam como filtros para enxergar e conviver com o mundo.
Ah, mas você deve estar pensando, então somos escravos das nossas programações? Não. Segundo o estudo da Biologia da Crença, do Bruce Lipton, elas precisam ser ativadas pela nossa vivência hoje e também podem ser alteradas, ou resignificadas. É um dos nossos desafios da maturidade, na busca pela expressão do nosso ser.
E como mudar? Acessando essas programações escritas por trás desses sintomas, comportamentos, crenças, mergulhando fundo no inconsciente para ativar ou desativar informações.
As meditações podem contribuir muito. Chegar a alfa e theta conscientemente nos possibilita alcançar o “universo” vivenciado naquela época da infância, trazendo informações e oportunidades.
Hoje em dia muitas terapias que promovem o acesso às histórias inconscientes e mudam essas programações.
Muitas são as possibilidades para reescrever uma nova história a partir de hoje.
Mudar hábitos e até sintomas pode parecer difícil porque as raízes não estão mapeadas conscientemente. Mas a mensagem que eu quero te passar neste texto é que a MUNDANÇA É POSSÍVEL!
Seja por meditação, por terapia, a primeira mudança é reconhecer que não somos escravos da nossa genética ou da nossa história e da nossa família. Um caminho novo pode ser escrito e a influência do que foi pode ser minimizada.
Te desejo uma bela nova jornada!
Com carinho
Bia
 

Bia Rossi

Pesquisadora, terapeura Bodytalk

Este post tem 7 comentários

  1. Isaque Goes da Silva

    Muito obrigado pelo artigo que me serviu de resposta para aquilo que questionei hoje pela manhã. Gratidão Bia C Rossi!

    1. Bia C Rossi

      Que bom Isaque! abraço

  2. Paulo Cesar Trindade Vieira

    Olá Bia,
    Muito interessante o seu comentário sobre a desmistificação das crenças. na última parte, do seu texto, cito:
    “…Seja por meditação, por terapia, a primeira mudança é reconhecer que não somos escravos da nossa genética ou da nossa história e da nossa família. Um caminho novo pode ser escrito e a influência do que foi pode ser minimizada…”,
    Tudo isto é uma grande chave! Estas alternativas de mudança que aparecem aqui, sejam possivelmente a meditação ou a terapia, são um caminho para superação das crenças? Hoje estão disponíveis muitos estudos apontando que estamos sim, ligados aos nossa história, e a da família… Qual o caminho para lidarmos positivamente com estas particularidades?
    Como nos libertar mesmo.. O que você recomenda para estudarmos sobre este assunto?
    Muito agradecido,
    Paulo Trindade
    Contato: paulotricev@yahoo.cpm.br

    1. Bia C Rossi

      Oi Paulo, obrigada pelo comentário.
      Venho estudando a intuição como um caminho para sutilizar as nossas percepções e trazer clareza sobre essas questões.
      Todos esse pontos (crenças, complexos), ficam em evidência na nossa consciência quando favorecemos virtudes, assim, nos fortalecemos e podemos liberá-los. Acredito que uma grande chave é conseguir achar um ponto na sua vida, no qual você brilhe, e fortaleça isso para quando esses pontos surgirem, você conseguir transcender. Não digo que existe uma fórmula para lidar com eles, cada indivíduo tem sua peculiaride. Espero ter te dado um norte.
      Se quiser conversar melhor pode me enviar um email: biarodrigues@jungnapratica.com
      abraço
      Bia

  3. Kássia Borges

    Ótimo e curioso texto! Além de nos esclarecer a respeito das nossas vivências e limitações, o texto também nos ajuda no entendimento da infância e compreensão de aspectos, por exemplo, como a educação de nossas crianças.
    Fantástico!
    Abraços.

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